quarta-feira, 21 de maio de 2008

Da série: Vou de táxi

Minha família é pobre, mas tem mania de andar de táxi. Talvez seja isso que nos deixe cada dia mais pobres, mas de fato o que acontece é que nosso computador viu cristo ser crucificado, o amor nascer e ser assassinado, as bruxas pegando fogo pra pagar os seus pegado, nasceu há 10 mil anos e não tem nada nesse mundo que ele não saiba demais. Enfim, a gente tem que ter respeito pelas coisas de idade, e somado isso à nossa não muito elevada condição social, eu sei que nunca vou ter um Ipod, um Palm, um computador em que The Sims funcione numa velocidade aceitável, brincos que não sejam comprados na Uruguaiana ou qualquer coisa do tipo, mas nós nunca abriremos mão de andar de táxi.
Talvez justamente por isso eu tenha acabado gostando de taxistas. Outro dia a gente "desceu" (porque eu moro quase no Cristo Redentor) com um estudante de direito que contou pro meu pai que graças a uma emenda constitucional em 2003 "feita na calada da noite" a taxa de juros pôde ultrapassar os 12%. O que nos trouxe de volta ficou desconfiado de um fusca que parou atrás da gente - é que a ladeira do meu condomínio é cheia de curvas, então enquanto um carro sobe, o outro pára e espera o da frente manobrar, pra não acabar pendurado pelo meio do caminho - e saiu de carro portando sua querida arma. Achei um momento assim bem supimpa, aí ele voltou pro carro e explicou que trabalhava em uma penitenciária, como que justificando a desconfiança, e perguntou se o nosso condomínio era sem saída e tal e a gente fez q.
Tem uma taxista que a gente pega de vez em quando também, e que é mega estressada e valentona, e vai contando pra mim e pra minha mãe de todas as vezes que ela armou barraco, e dá as risadas mais psicopatas da Terra, o que me diverte muito. Tem um outro mais velho que costuma me contar as histórias bizarras com passageiros - brigas de casais, coma alcóolico, meninas chorando e pedindo conselhos amorosos etc - e tem aqueles mais calados, mas tudo bem, porque silêncio de taxista é um dos poucos silêncios com desconhecidos que não me incomodam, não é tipo silêncio de ascensorista que dá vontade de cantar YMCA pra quebrar o gelo - não que isso fosse eficiente, mas ok, o desespero é tão grande na hora que nem dá tempo de pensar em outra coisa. Teve um outro motorista outro dia que era mega culto e falava trocentos idiomas e ficou falando sobre coisas culturais e vinhos, e um outro que ficou falando sobre como brigava na escola pra defender a irmã, e também contou que acabou casando cedo porque teve um filho.
Tem gente que se incomoda quando desconhecidos começam a falar, mas eu não me importo. Raramente falo qualquer coisa de volta, e nunca começo uma conversa, mas às vezes é até legal ouví-los falando sobre as suas vidas. Tem vezes que eu tô tão centrada em mim e nas pessoas que eu conheço e no meu mundinho, que até me esqueço de como existem pessoas tão diferentes, com realidades que eu preciso me esforçar pra imaginar. E eu também sempre fico impressionada em ver quanto tipo diferente de gente é taxista. Ou quanto tipo de gente é, sei lá.

7 comentários:

Raíssa Bernardes disse...

Adorei.
Eu me sinto mais desconfortável conversando dentro do taxi do que com o taxista.
Sei lá ele vai estar escutando minha conversa, vai que depois ele conta isso a alguém como mais uma das suas estórias mirabolantes...eu não, joão!

Ana Lúcia disse...

"Tem gente que se incomoda quando desconhecidos começam a falar..."|

Eu sou esse tipo de gente. Adoooro taxistas calados.

Anônimo disse...

Outro dia peguei um táxi e o motorista ficou falando que tava gripadão porque - 'cê sabe, né! quando a gente vai pra motel, sua, toma um banho, volta pro ar condicionado, sua de novo, toma outro banho e volta pro ar condicionado... mas eu acho que vou terminar com ela, muito novinha, sabe... é...

hahahaha

táxi é tipo sangue AB, qualquer um pode dirigir - com o perdão da má analogia!

Anônimo disse...

Isso me lembrou de muitos anos atrás, quando um motorista fã do Paulo Coelho começou a dizer que a vida era um palco e etc... E eu estava tão calada, que ele achou que minha mãe estava sozinha no táxi =D

Marília M. disse...

Às vezes pego um que é fã do Elvis. E teve um também que quando eu pedi pra me levar pro hospital perguntou se eu tava numa trance que tava tendo. o_O

Raíssa Bernardes disse...

ATUALIZE!
u.ú

Unknown disse...

HA, FINALMENTE LI .____.
Pô, o scrap que vc linkou isso que sumiu >XD Por isso que há um tempão eu tinha perguntado se vc havia apagado...mas enfim.
Atualize! [2] Nem li tudo, mas logo termino. Não sei se eu já comentei, ou se nem precisa, mas adoro seus textos =D