Minha família é pobre, mas tem mania de andar de táxi. Talvez seja isso que nos deixe cada dia mais pobres, mas de fato o que acontece é que nosso computador viu cristo ser crucificado, o amor nascer e ser assassinado, as bruxas pegando fogo pra pagar os seus pegado, nasceu há 10 mil anos e não tem nada nesse mundo que ele não saiba demais. Enfim, a gente tem que ter respeito pelas coisas de idade, e somado isso à nossa não muito elevada condição social, eu sei que nunca vou ter um Ipod, um Palm, um computador em que The Sims funcione numa velocidade aceitável, brincos que não sejam comprados na Uruguaiana ou qualquer coisa do tipo, mas nós nunca abriremos mão de andar de táxi.
Talvez justamente por isso eu tenha acabado gostando de taxistas. Outro dia a gente "desceu" (porque eu moro quase no Cristo Redentor) com um estudante de direito que contou pro meu pai que graças a uma emenda constitucional em 2003 "feita na calada da noite" a taxa de juros pôde ultrapassar os 12%. O que nos trouxe de volta ficou desconfiado de um fusca que parou atrás da gente - é que a ladeira do meu condomínio é cheia de curvas, então enquanto um carro sobe, o outro pára e espera o da frente manobrar, pra não acabar pendurado pelo meio do caminho - e saiu de carro portando sua querida arma. Achei um momento assim bem supimpa, aí ele voltou pro carro e explicou que trabalhava em uma penitenciária, como que justificando a desconfiança, e perguntou se o nosso condomínio era sem saída e tal e a gente fez q.
Tem uma taxista que a gente pega de vez em quando também, e que é mega estressada e valentona, e vai contando pra mim e pra minha mãe de todas as vezes que ela armou barraco, e dá as risadas mais psicopatas da Terra, o que me diverte muito. Tem um outro mais velho que costuma me contar as histórias bizarras com passageiros - brigas de casais, coma alcóolico, meninas chorando e pedindo conselhos amorosos etc - e tem aqueles mais calados, mas tudo bem, porque silêncio de taxista é um dos poucos silêncios com desconhecidos que não me incomodam, não é tipo silêncio de ascensorista que dá vontade de cantar YMCA pra quebrar o gelo - não que isso fosse eficiente, mas ok, o desespero é tão grande na hora que nem dá tempo de pensar em outra coisa. Teve um outro motorista outro dia que era mega culto e falava trocentos idiomas e ficou falando sobre coisas culturais e vinhos, e um outro que ficou falando sobre como brigava na escola pra defender a irmã, e também contou que acabou casando cedo porque teve um filho.
Tem gente que se incomoda quando desconhecidos começam a falar, mas eu não me importo. Raramente falo qualquer coisa de volta, e nunca começo uma conversa, mas às vezes é até legal ouví-los falando sobre as suas vidas. Tem vezes que eu tô tão centrada em mim e nas pessoas que eu conheço e no meu mundinho, que até me esqueço de como existem pessoas tão diferentes, com realidades que eu preciso me esforçar pra imaginar. E eu também sempre fico impressionada em ver quanto tipo diferente de gente é taxista. Ou quanto tipo de gente é, sei lá.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
domingo, 4 de maio de 2008
Da série: O mundo segundo a Globo
Isso faz um tempo. Era perto do fim do ano, e por isso 80% do conteúdo do jornal e dos noticiários da TV envolviam ano novo. Na TV estava passando uma matéria sobre crianças que se perdem dos pais durante o ano novo, e avisos e alertas e um repórter dizendo "cuidado para um incidente assim não estragar o seu revéillon" com voz grave.
Imaginei o diálogo.
- Perdi meu filho.
- Sério? Como assim, cara!? O que aconteceu?
- Ah, tava lá na praia, vendo os fogos, quando viro pro lado, meu filho sumiu. Perdi meu revéillon com isso.
- Pô, cara, mas e aí, o que aconteceu?
- Ah, aí já era, né, o revéillon já tinha passado.
(e o diálogo continua pra sempre na minha cabeça
- Não! Tô falando da criança! E a criança?
- Porra, eu lá quero saber de criança? Você não ouviu o que eu disse? Meu revéillon foi estragado! Agora só o ano que vem, que merda!
...)
Adoro o mundo segundo a Globo. Depois eu rio vendo noticiário e ninguém me entende.
Imaginei o diálogo.
- Perdi meu filho.
- Sério? Como assim, cara!? O que aconteceu?
- Ah, tava lá na praia, vendo os fogos, quando viro pro lado, meu filho sumiu. Perdi meu revéillon com isso.
- Pô, cara, mas e aí, o que aconteceu?
- Ah, aí já era, né, o revéillon já tinha passado.
(e o diálogo continua pra sempre na minha cabeça
- Não! Tô falando da criança! E a criança?
- Porra, eu lá quero saber de criança? Você não ouviu o que eu disse? Meu revéillon foi estragado! Agora só o ano que vem, que merda!
...)
Adoro o mundo segundo a Globo. Depois eu rio vendo noticiário e ninguém me entende.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Oh, não, ela voltou!
Voltei, ou algo do tipo. Tava sem querer voltar porque não tinha tempo pra blog, nem inspiração, nem bons textos. Mas aí eu parei e pensei e me dei conta de que também não tinha nada disso quando tinha o outro blog.
(e se alguém me ajudar com um template decente eu vou ficar bem feliz)
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