quarta-feira, 2 de julho de 2008

Flora X Caixa

Da série: vida de estagiária.

Não sou uma pessoa dotada de muita coordenação motora, como constataram todos os professores de educação física ao longo de minha vida, já que sempre me deram notas baixas. Eu resmungava frequentemente no outro blog sobre isso, quando tinha que fazer aulas dessa sofrível matéria, e resmungava na vida real sempre que tinha que fazer trabalho de desenho ou artes. Minhas retas sempre foram tortas e minhas curvas sempre foram..anh...tortas. Minhas bolas só chegavam ao aro de basquete quando jogavamos handball. E por aí vai.

Quando tava no terceiro ano, lembro-me de ter pensado "ai, um dia eu vou fazer faculdade e vou trabalhar e vou me ver livre de todo esse mal". Tolinha. Na faculdade temos momentos de corte e cola e, agora que consegui um estágio, descobri que no trabalho TAMBÉM TEMOS MOMENTOS DE CORTE E COLA, OH NOES.

Tô fazendo comunicação social porque quero editar livros e tô estagiando numa editora. Até aí, supimpa. Só que eu sabia que deveria ter levado mais a sério o papo de escola preparar para vida. Vou narrar com bastante drama meu primeiro acidente de trabalho (que me prejudicou. Normalmente eu acidento as coisas, mas isso é assunto pra um outro post)

Chegaram livros que a gente tinha mandado pra gráfica, e eu tinha que separar os livros que iam pro autor e guardar alguns com a gente, depois preparar pra mandar os que iam pro autor pra ele. , vocês pensam, isso é mongol. Na hora eu pensei parecido, algo como "ok, livros são amigos, gosto deles". Vocês erraram, eu também.

Pra começar, o autor tinha escrito dois livros, e eu tinha que separar 105 exemplares de cada um. E tipo, os livros todos juntos pesavam MUITOS E MUITOS quilos, isso não era legal, tive que pedir ajuda pra editora lá que é grande e forte e com super-poderes, tipo levantar caixas pesadas, aí ela me ajudou. Depois que ela voltou pra sua mesa e eu fiquei sozinha com a primeira caixa, eu olhando pra ela, ela olhando pra mim, pensei "ho, você é uma caixa, eu tenho braços, pernas, mãos e, principalmente, cérebro. Você não pode me vencer". Acho que até o fim do texto eu bato recorde de quantas vezes uma pessoa pode se enganar na mesma história.

Por algum motivo do demônio, provavelmente por eu ter parado de estudar matemática ano passado, eu desaprendi a contar. Me confundi várias vezes sobre o número de livros que estavam dentro da caixa, e depois de tirar e recolocar 15 livros três vezes, percebi que a primeira conta era a certa. Fingi que não vi o deboche da caixa maldita, porque teoricamente contar livros era a tarefa mais fácil, e eu ainda tinha que embalá-la.

ÓBVIO que na hora de embalar a caixa o papel ficou todo amassado e um pouquinho rasgado, que a fita adesiva ficou totalmente enrugada, que um pedaço de fita adesiva grudou no meu cabelo, que eu consegui prender a tesoura com fita adesiva e demorei um tempão tentando abrí-la de novo, que eu perdi o rolo de fita, que toda hora a pontinha da fita colava de volta no rolo e eu tinha que ficar meia hora tentando tirar porque não tenho unha, e assim por diante. Ah, sim, óbvio que eu consegui ME CORTAR COM PAPEL e começar a sangrar como se não houvesse amanhã e eu fosse hemofílica, isso foi tipo o ápice e eu já tava completamente humilhada por uma caixa de papelão, e já tinha feito tantos grunhidos e resmungos e "ops" e "ai", que já tinham me perguntado se tava tudo bem e caído na gargalhada da minha cara. No fim, o papel em que eu escrevi o endereço ficou torto e mal colado, e eu nem quero imaginar a cara que eles fizeram quando viram as caixas "embaladas" (porque o processo de embalagem da segunda foi idêntico ao da primeira).

Placar final: Caixa 10 x Flora 0. E minha ex-professora de educação física pode rir de mim o quanto quiser. Vocês também.